sinto muito
Sinto os cheiros
o sabonete, o creme, o desodorante do vizinho, o sabão em pó da vizinha, aquela única mexerica passada na fruteira, uma barata escondida, o cloro da água tratada da torneira, a carne com batata no prédio ao lado, a flor de laranjeira no meio da quadra
Sinto os sons
as mastigações, as goteiras, as embalagens, os pratos e dentes batendo, as obras, as músicas altas e gente gritando por cima de tudo isso
Sinto as texturas
O que aperta, o que arranha, o que cutuca, o que é liso ou rugoso, o que é denso, o que é crocante, que é suave, o que é delicado
Sinto as belezas
As brisas, os enquadramentos, os olhares, os gestos e os sentimentos
A pele é uma tópica que já me debrucei antes: dermatites atópicas, urticárias, dermatografias, rachaduras. Muito sensível a pele dela, sempre deu problema. Se eu presto atenção ela tem muito a me dizer sobre o que estou suportando - e não deveria.
Tem também a anedota de eu ser um bebê que não tolerava roupa, que corria pelada falando “ôpa (roupa) não” ou “fodinha (fraldinha) não!”. Engraçada, né. O bebê nudista virou uma criança que entrava em total desespero quando a manga da blusa ficava 'engruvinhada' por dentro do casaco - era um esforço social não fazer escândalo. Uma criança que ficava totalmente inapta a existir quando a meia molhava, ou desproporcionalmente incomodada quando o elástico da calça apertava, ou a quina da costura da meia ficava pegando no dedinho do pé. Uma chatinha.
De pequena tive otite de repetição, que deixou sequelas - até hoje, quase quatro décadas depois, meu ouvido se queixa quando é obrigado a ficar no vento ou água gelada. Que frescura.
Às vezes me sinto um cachorro, escutando coisas em tantos lugares e com tantos detalhes, dando pulos de susto com barulhos altos, ou semicerrando os olhos na esperança de que reduzir uma das entradas ao meu corpo vá abaixar o volume de uma televisão alta que não posso desligar. Ou sentindo que a comida está estranha, ou diferente, mesmo quando ninguém mais percebeu que está passada ou quando tentaram me enganar (como cão que separa somente o remédio no meio da comida). Tá inventando moda. Comia mesmo assim, e lidava com as consequências de não me escutar.
Essa sensibilidade extrema não era algo que eu deixava qualquer pessoa ver, somente em casa me permitia expressar essas afetações. Então o meu apelido carinhoso em casa era intolerante - em retrospecto é engraçado de perceber que vinha de pessoas com (in)tolerâncias muito semelhantes.
Pois bem, cresci entendendo que estava sendo chata, muito sensível, querendo ser uma princesa que sentia uma ervilha sob vinte colchões. Segurei no semblante e me tornei uma jovem e adulta que suportava, tolerava e tentava não incomodar os outros com seus incômodos. Os sons agressivos, os apertos, os roxos, as luxações, os sapatos ‘confortáveis' que arrancam pedaço, os desrespeitos, a falta de sono, os gritos e barulhos agressivos, a pele rachada, as 'crocâncias' e estalos, a coleção de dores.
Quando não me respeito (e não sou respeitada) meu corpo 'enche' a ponto que não suporto mais nada. Saturada não consigo pensar, respirar, falar, sentir, articular - só preciso sair. Quero virar bicho, subir um muro, entrar numa fresta, voar, entrar na terra. Qualquer coisa pra sair desse mundo pontudo que tá machucando.
Quando me respeito e respeito meus sentidos, posso sustentar a sensibilidade - e o mundo é poesia. Não poesia idealizada e plácida dos parnasianos. Poesia que tem cacofonia, verso cortado, onomatopéia, neologismo e até palavrão. Poesia que tem grito silêncio brisa vento barulho de bicho riso de gente música conversa ao fundo e folhas. Poesia que quero habitar.



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