vôo
Em uma aula do Percurso há um tempo falamos de vôos e de pousos, a partir de um texto sobre atenção flutuante, da autora Virgínia Kastrup. Tem uma beleza nessa imagem, uma poesia, um convite. Me parece que tem também uma concretude e uma convocação bem prática na direção do rigor ético no texto dela.
O pássaro, para voar, tem uma rotina rigorosa de cuidar das penas. Essa é uma atividade individual mas também comunitária. Para olhos de sapiens sapiens, produtivos que somos, pode parecer um ócio, vaidade ou exagero o tempo que passam com o bico acariciando a penugem. Mas é importante tirar os parasitas, afofar as penas, estimular a produção de óleo e distribuir ele ao longo do corpo. Isso garante a forma e função das penas, regulação da temperatura corporal e proteção contra a água: é este cuidado que mantém o pássaro no ar - junto a seu saber, sua musculatura, a relação que criou com o vento. Ele poderia ter tudo isso e nunca sair do chão, se as penas não estivessem cuidadas.
Puxa, que pesado, não? Por quê falar desse trabalho todo e das consequências de negligenciá-lo? Muito sapiens sapiens da nossa parte considerar que esse trabalho, tão diário, tão afetivo e tão essencial seja de algum modo oneroso. E me parece exemplar do nosso modo de aprendizagem desconectado (em que estudamos velocidade sem atrito ou gravidade) considerar que ideias não têm efeitos - que possa existir algum lugar onde tudo é vôo e não precisamos tratar das penas. Ou sentir que por passarmos tempo cuidando das penas estamos diminuindo a experiência do vôo - como se não fossem momentos do mesmo corpo e movimento.



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