pele de papaia
“I bruise like a peach”
Lembro da frase chorosa do personagem manhoso dizendo “eu me machuco como um pêssego” seguido de risos. Já disse isso, já que vivia roxa sem ter caído, e minha pele marca com qualquer pressão. Mas pensei melhor, menos gringa, e acho que me machuco como uma papaia - que não à toa tá protegida nas feiras e mercados. Afinal, você não sai metendo um dedão na papaia, você lida com cuidado: vê se está boa pela cor, pela textura da pele, pelo perfume. não enfia o dedão. (Ou enfia, né? Não à toa tem tanto mamão machucado no canto da bandeja).
Mas perceba: pode parecer uma sensibilidade exacerbada da fruta. É assim que ouvia e assim que sentia. É uma coisa manhosa, fresca e chata - como se precisasse, mesmo, era criar casca grossa e aguentar a brutalidade das mãos sem marcas.
Crie, sim, uma casca. E então a pele reage. Sem ser necessariamente ao toque bruto, mas quiçá a outra violência menos física. A casca grossa convoca uma pele fina, machucada, irritada, com unhas tortas e descamadas. Na frieza das condições, surgem vales de aspereza árida e rachaduras pungente.
Seja forte, segure, não solte, não apareça nem precise. E então a pele se expressa. Uma pele que grita arde eleva releva encrespa e pede por unhas, como se quisesse sair de mim. O corpo cansou de engolir o cala-te. E mandou o aviso por escrito, e em relevo, porque a cabeça não queria saber disso (mandou ficar boazinha).
Não demonstre. Mente sobre corpo, se der atenção para isso é pior - melhor tentar relaxar e seguir adiante. E logo a pele grita. Frente a uma intrusão irritante, ainda desconhecida, não mapeada ou deliberadamente ignorada, ela sem desistir de mim (de me proteger, ou ao menos me avisar) levanta placas vermelhas de PARE que não posso ignorar. Coloca fogo em tudo, se for o único jeito de se fazer escutar.
Em nome de que discursos me coloquei a ignorar o maior órgão do meu corpo por tantos anos? Meu primeiro tecido? Aquilo que me dá a possibilidade de sentir o mundo e me dar contorno?
Independentemente dos nomes médicos para estes processos e sinais, me parece que o patológico na realidade é o modo da cultura de tentar enquadrar os sujeitos e fazê-los acreditar que sua experiência é inválida ou inadequada, e precisa ser silenciada. Que sua existência é doente. Que sua sensibilidade é uma fraqueza. Que não há o que fazer. Que é melhor desligar o alarme do que procurar de onde vem a fumaça.
Isso diminui nossa potência de agir, nossa possibilidade de criar condições de lida com o mundo (com suas violências, intrusões, condições, belezas) e com as proposições do inconsciente (suas queixas, gritos, expressões e também criações). A existência pode ser mais interessante e interessada do que isso.
Por isso sigo no mundo, com minha pele de papaia incendiária.



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