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arqueologia do vivo

  • Writer: Amanda Talhari
    Amanda Talhari
  • Jun 7, 2023
  • 2 min read

Updated: Nov 26, 2023

Parece que tem um combinado coletivo racional (delirante) de que existe um jeito errado de sentir e ser. Essa mania de racionalizar e dispensar com falas como “você tá exagerando” ou “nem foi tudo isso” vindas de fora & de dentro de você mesmo.

Aí você se depara, no processo de análise, com as perguntas como “porque isso me afetou assim?” ou “pode parecer desproporcional, mas o sentimento está lá, então do que se trata?”. E esse exercício muda todo o jeito que você enxerga o mundo.

Mas percebo que nem toda escuta promove deslocamento. Muitas vezes acaba caindo naquele combinado de um “jeitocorreto” de existir, apontando consequências das escolhas como “erros" - desconsiderando o que é possível a cada momento, e como se esse processo fosse incompatível com fazer novas escolhas. Isso ajuda a manter no mesmo lugar. Que análise é essa? Uma bem danosa, um discursinho de mestre disfarçado de gola-rolê-óculos-charuto. Uma interpretação limitada e neurótica da fala de Freud "qual a minha participação na desordem da qual me queixo?”, trazendo fechamento, impotência e culpabilização no lugar de uma reflexão que poderia trazer abertura, agência e potência.

Numa aula da ALCEP trouxe uma imagem: se os discursos da sociedade (suas instituições, estruturas, normas, etc) vão jogando sedimentos sobre os sujeitos, soterrando sua força com entulhos, o processo de análise é como um paleontólogo escavando, tirando a sujeira de cima, desenterrando aquilo que tá solapado. Às vezes com pá, às vezes com pincel. E não dá pra fazer um trabalho meia boca, indo até uma parte e se contentando com partes do esqueleto - é um trabalho de uma vida essa escavação.

E a coisa mais linda, pra mim, é a descoberta que o que tá se desenterrando não é um esqueleto ou um fóssil, mas um bicho vivo. Um bicho único, que talvez ninguém conheça, que não tá catalogado. É um bicho que estava soterrado e adormecido acreditando que não existia. Acreditando que era fóssil, mesmo. E às vezes até ouvindo isso da boca de quem se propôs a escavar junto. Acho que não tem nada mais belo do que ver esse bicho se ver vivo. Forte e glorioso com suas cores, garras, bico ou dentes, olhos, penas, pêlos ou escamas.

 
 
 

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 2023 • Textos, ilustrações e diagramação de Amanda Talhari

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